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Mês de conscientização sobre o câncer de ovário: vamos encarar juntas essa história?
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O que faz uma pessoa, mesmo que de forma inconsciente, se recusar a pronunciar a palavra “câncer”? Mesmo em casos de cura, muitos se referem a ela como “aquela doença”. Talvez pelas marcas físicas e emocionais deixadas por uma experiência passada ou pelo medo de um dia passar por ela.
Agora, o que leva alguém a escancarar a luta diária, por anos seguidos, contra um câncer e compartilhar - sorrindo - suas dores e a fé inabalável na vida? Isso se chama cuidado com o próximo, para que sua experiência sirva de alerta e contribua para o diagnóstico precoce de outras mulheres.
Maio é o mês de conscientização sobre o câncer de ovário. Mas o que nós sabemos sobre a doença?
“Quando fui diagnosticada com câncer de ovário metastático, eu tinha 40 anos e não conhecia os sintomas, achei que fosse um problema gastrointestinal”, conta a profissional de Relações Públicas, Paola Penina. Segundo a Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, entre os tumores ginecológicos, o câncer de ovário é o terceiro em incidência, atrás do de colo do útero e de endométrio. Embora mais comum em mulheres que já passaram pela menopausa, esse tipo de doença pode acometer pacientes bem mais jovens, como foi o caso de Paola.
Entre os principais sintomas estão:
Dor abdominal ou pélvica persistente
Inchaço abdominal (aumento do volume da barriga devido ao acúmulo de líquido ou crescimento do tumor)
Dificuldade para comer ou sensação de saciedade precoce
Alterações no ciclo menstrual
Necessidade frequente de urinar
Cansaço extremo
Dias de luta
Era início de 2017 e Paola havia acabado de assumir o cargo de diretora de Cultura na Prefeitura de Caçapava. Muitas ideias, projetos, contatos e animação para cumprir da melhor forma o desafio. Ela havia retornado para sua terra natal depois de anos fora do país e agora trabalharia em uma das áreas que sempre foi apaixonada.
Em agosto do mesmo ano, as dores abdominais foram se intensificando. Paola até cogitou a possibilidade de intolerância à lactose ou glúten, mas antes de procurar um gastroenterologista, resolveu fazer uma sessão de acupuntura para tentar aliviar o desconforto. Foi aí que o primeiro alerta foi disparado: as agulhas não entravam na pele, o que segundo a profissional, seria uma indicação de que seu corpo estava inflamado.
Já no consultório do gastroenterologista e com os resultados de exames por imagem, a constatação: o tumor estava e seria necessária uma cirurgia, mas durante este primeiro procedimento, só pode ser feita a retirada do líquido abdominal. O caso foi considerado grave pelos médicos e seriam então necessárias sessões de quimioterapia antes de uma nova intervenção cirúrgica. Começava ali uma corrida contra o tempo e em favor da vida.
Em fevereiro de 2018 foi marcada o que Paola chama de cirurgia gigante: a histerectomia radical, com a retirada de órgãos do aparelho reprodutor feminino e de outros, como parte do fígado. A partir daí começaram os tratamentos com imunoterapia e bloqueio de hormônios, um verdadeiro bombardeio de drogas para estancar a doença.
Durante a realização do terceiro PET-CT, exame de imagem avançado que rastreia e detecta tumores, a boa notícia: muitos pontos cancerígenos haviam desaparecido! Apesar disto, o tratamento pesado tinha que continuar. E de tão pesado, o corpo deu sinais de cansaço.
Em 2022, a suspensão de alguns medicamentos trouxe alívio, mas em três meses outros sinais de metástase apareceram. “A doença voltou e ainda mais grave”, lembra Paola. De lá para cá, outras internações, cirurgias, sessões de quimioterapia e agora, tentativas de tratamento com novos medicamentos. Uma condição que Paola explica hoje como “doença crônica paliativa”.
Força interior
Foi para falar sobre esta trajetória que encontrei Paola Penina sorridente na varanda de um café, em São José dos Campos, no final de uma manhã de outono. Os cabelos curtos e um quimono colorido sobre a camisa preta, destacavam ainda mais os olhos azuis arregalados e cheios de vida e luz.

Como aquela criatura, que nos últimos nove anos enfrentou tantos desafios, ainda consegue recordar com serenidade (e às vezes com humor), momentos tão desafiadores? Dois pontos ficam muito claros aqui: o amor pela família (a filha Yana de 15 anos e o marido Todd, um australiano, ex-jogador de rugby) e o desprendimento para ajudar e alertar muitas mulheres sobre a importância do diagnóstico de um tipo de câncer que fica escondidinho na parte baixa da bexiga.
“As pessoas falam muito pouco sobre o câncer de ovário e nós precisamos discutir isso. Oito de maio é o dia mundial de conscientização sobre esta doença, que é letal e perigosa, justamente por ser silenciosa. Cerca de 75% dos casos de câncer de ovário são diagnosticados quando a doença já está em estado avançado, porque as mulheres não têm informação sobre como prevenir e quais são os sintomas. Elas têm que ficar atentas aos sinais e procurar ajuda profissional para entender o que está acontecendo”, desabafa Paola.
Viver intensamente cada dia
Mesmo muito antes de passar por esta experiência, viver intensamente cada momento já era um lema de Paola Penina. Depois de se formar em Relações Públicas pela Unitau, o objetivo era claro: passar um tempo estudando a língua inglesa e ir morar fora do Brasil. Já muito jovem tinha um bom emprego, independência financeira e um sonho pertinho de ser realizado. Vendeu o carro, sacou o Fundo de Garantia e partiu para a Austrália, onde a ideia era ficar por um ano.
O primeiro emprego foi como ajudante de tarefas domésticas e cuidados com as duas crianças de uma família australiana. Lugar para morar, alimentação e a chance de se aprofundar nos estudos. Também trabalhou lavando louças em um café, além de tantos outras experiências que viveu para se manter em solo australiano.
Para quem pretendia ficar no máximo um ano fora do país, não casar e nem ter filhos, o destino reservou surpresas: casou com um australiano e mudou temporariamente para Roma para acompanhar compromissos profissionais do marido. E como ficar parada nunca esteve nos planos de Paola, lá estava ela como funcionária da marca de luxo Cartier, com direito até a conhecer celebridades internacionais, como a cantora e atriz americana Barbra Streisand.

Na volta para Sidney (AUS), reencontrou uma executiva do Greenpace (organização internacional não governamental ambiental) que havia conhecido por acaso em uma sessão do Festival de Cinema. E o antigo contato rendeu um convite para trabalhar como voluntária e, mais tarde, uma candidatura bem-sucedida à vaga definitiva na instituição.
“Foi o trabalho dos meus sonhos”, relembra a filha de uma professora de Biologia que sempre a incentivou ao interesse por questões ambientais, além do foco cultural e cuidados com os seres humanos.
Foi também em Sidney que Paola engravidou e onde nasceu sua filha Yana, hoje com 15 anos. O ritmo acelerado de trabalho e a falta de uma rede de apoio familiar para cuidar da pequena, a fizeram repensar a distância. Além disso, seu pai estava em tratamento contra um câncer no pâncreas e ela queria ficar perto dele naquele momento.

Acompanhada da filha e do marido, ela volta então para o Brasil para começar uma nova história. Depois do falecimento do pai, seria a sua vez de encontrar no vínculo familiar a força para enfrentar a própria doença e a resignação para fazer dela uma luta diária de conscientização de outras mulheres sobre o câncer de ovário.

Força e beleza
Sem preconceitos, tabus e com muito amor próprio, Paola decidiu fazer um ensaio fotográfico logo após o início das sessões de quimioterapia. Foi pelas lentes da fotógrafa Taine Cardoso, que se revelou a força de uma mulher e sua autoestima, mesmo com a queda do cabelo e cicatrizes no corpo.

“Passar por tudo isso me mostrou a fragilidade da vida. Qualquer um de nós pode não estar aqui amanhã pelos mais variados motivos, conta Paola lembrando a perda recente de um amigo da idade, vítima de um infarto. “A gente com esta vida corrida não se olha, principalmente nós mulheres, mães filhas, esposas, companheiras, que sempre estamos cuidando dos outros e deixamos nossas queixas para resolver depois. Não há tempo a perder... viver é o mais importante”, finaliza.
A narração desta história partiu de nossa amizade e a resignação de Paola em aumentar a conscientização e promover conhecimento, engajamento, mobilização e visibilidade sobre o câncer de ovário, inclusive por meio de políticas públicas e campanhas.
Para mais informações sobre sintomas, causas e tratamentos do câncer de ovário, acesse: https://www.einstein.br/n/glossario-de-saude/cancer-de-ovario ou outros canais oficiais ligados à Saúde.
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